Sexta-feira

Balanço 2007

Amei
Barafustei
Cantarolei
Desesperei
Esperei
Fotografei
Guardei
Habitei
Infantilizei
Joguei
Li
Maternalizei
Namorei
Opinei
Postei
Quis
Ri
Silenciei
Trabalhei
Ufanei
Vivi
Xinguei
Zirrei

Fui eu.

Quarta-feira

Educação sentimental (7)

As trovoadas são luminosas. Nunca escurecer o azul da espera para cinzento ou negro.

(caramba!, é difícil)

Educação sentimental (6)

Era uma vez uma rapariga que esperava uma palavra. Era uma vez uma palavra que esperava ser dita. Era uma vez um gesto que continha a palavra e a rapariga. Havia um rapaz. A história ficou suspensa no azul da espera.

Quarta-feira

educação sentimental (5)



Gostar de alguém é muitas vezes entrelaçar o nosso próprio eu com a necessidade do outro. Sim, há janelas que se fecham. Não é anulação. É amor. Não é fácil. Nós górdios permanecem. Há dias que a solidão nos bate à porta. Mas nós permanecemos sorrindo, de mão estendida para o outro. Nunca usar luvas para aquecer as mãos.

Segunda-feira

eu (4)




O silenciar nem sempre é calar. Há um calar que é voluntário e a pessoa sabe que está calada. E há um silenciar que é assim uma espécie de vácuo, de um sentimento vago que a pessoas não sabe bem o que é nem de que se trata, e portanto silencia. (...)



(...) é realmente preciso ter uma certa disponibilidade para estar calado com sinceridade, com franqueza. (...) A experiência do silêncio, da solidão é decisiva na vida de qualquer pessoa.

João dos Santos, Eu agora quero-me ir embora - Conversas com João Sousa Monteiro, Assírio Alvim, Lisboa 1990

Sexta-feira

Vantagens de utilizar transportes públicos (2)

Gostava muito da crónica da Isabel Stiwell, aos domingos- enquanto foi responsável pela revista do Diário de Notícias DN Magazine (que, diga-se de passagem piorou desde a sua saída) -, felizmente continuo a ler as suas crónicas no DESTAK:


Não podemos diabolizar as coisas, lá porque elas são utilizadas para fins errados ou perigosos. O suicício, ou um para-suicídio, é certamente a experiência mais extrema e dolorosa não só para quem o tenta, como para a família que, sinceramente, acredito nunca se recompõe totalmente. A ideia que que não chegámos para aquela pessoa, de que não fomos capazes de a proteger, deve ser a prova mais dura por que alguém pode passar. Só a certeza de que cada um é o responsável último pela sua vida pode diminuir, de alguma maneira, o impacto nuclar de um gesto destes. Mas essa certeza tem dia e tem horas, e raramente se instala permanentemente, embora fosse completamente justo que assim fosse.


Mas não são, nem podiam ser, os ansiolíticos os culpados, nem outra qualquer substância, porque admiti-lo é admitir que o inimigo vem de fora e não de dentro. O que não é verdade. As benzodiazepinas foram das dscobertas mais fantásticas do mundo, como sabem 80% dosportugueses que todos os anos recorrem ai seu uso. Como poderiam aliás atestar maridos e filhos salvos do SPM das mulheres, colegas de trabalho que corriam risco de ser assassinados, funcionários de repartições de Finanças que chegam ao fim do dia com a sua integrídade física preservada.


Não, não estou a fazer a apologia da droga, mas um reconhecimento de que o stress, e muito pior do que isso, a ansiedade e o pânico são dos piores pesadelos que nos podem assaltar. Paralisam a vítima, congelam o cérebro, dão-lhe uma sensação de total impotência. São sintomas de uma doença, passageira ou crónica, e merecem ser tratados como quaisquer outros. Sem obviamente se fazer a apologia de que mem lugar se de procurar as causas, se opte por afogá-las em comprimidos.


O que me irrita mesmo é que, subjacente a esta atitude critica está , muitas vezes, a convicção moralista de que o sofrimento mental fortalece a alma. Um tipo de 'mal-estar' que as pessoas de barba rija superam sozinhas. Como aliás as taxas de alcolismo indicam na perfeição!

Quinta-feira

FERNANDA BOTELHO 1926-2007 (2)

Andava a reler, por acaso, Calendário Privado. A personagem Aninhas/Anita sempre me cativou(a). Mas deixo aqui um excerto de "Xerazade e os Outros" com especial dedicação à Alexandra.

UMA VELHA TINHA UM GATO

É tarde ou cedo. Saturno? Pode ser tarde, pode não ser, para ti, Saturno, é a mesma coisa. Digeriste o peixinho, Saturno? Sentes-te bem? Estás melhorzinho? Vá, dorme, dorme, não posso ficar eternamente aqui, a fazer-te festinhas na barriga, que o tempo não pára, não pára, Saturno... e há muito que fazer, sacudir, limpar, enxotar, passar a ferro a camisa do Berto, e a roupa da cama, e as rodilhas, e todos os trapos; tu sabes, isto aqui não é a casa da condessa - lembras-te -, onde tudo aparecia feito, os lençois eram aos montes, e, bastava pedir por boca, logo eram toalhas de mesa e toalhas de turco e damasco às dúzias para uso... para uso, Saturno! lembras-te?

E a senhora condessa contigo no no regaço a puxar-te as orelhas e a dizer ( tão engraçada que ela era!): 'Bichinho-gato! Malandreco! Malandreco! Bichinho-gato!' E tu, Saturno, de orelhas todas espetadas, a miar quase sem voz de gato, até fazia arrepios, todo desafinado, e ela: 'Malandreco! Malandreco! Bichinho-gato! Morde aqui, morde!' Era o mordias, pois, quem dá pão, dá criação! Era o mordias! (...)

(...) Usavas então pêlo amarelo com manchas brancas no dorso e em torno do nariz, um nariz sempre pingão! Lembras-te?

Agora és um Saturno negro, negro, negro, um breu com mancha branca na pata - a mancha que fazia os encantos da Luisinha! O pelo amarelo caiu, espalhou-se pelos sofás, pelos tapetes, pelo colo da senhora condessa, o nariz cada vez mais pingão, o miado cada vez mais débil... até que se foi, o Saturno, a enterrar no jardim, junto à macieira que dava umas reinetas de estalo, só para a senhora condessa, que as migava com açucar mascavado, uma delícia para ela, lembras-te, Saturno? Lembras-te dos lábios pegajosos da senhora condessa? De como era engraçada e gulosa, até mais não?

Ouviste a campaínha, Saturno? Põe-te lá decente, anda - de barriga para baixo, como gato que se preza, a dormir no aconchego, barriguinha cheia, na paz da casa -, que eu, tem de ser, vou ao botão e carrego, é só carregar, a abrir a porta, tem de ser Saturno! Se é um que venha pelo quarto, o quarto, bem sabes, o quarto para alugar - não posso dizer que não, bem sabes... Nós temos precisão, nós todos - eu, tu, o Berto - temos precisão de paparoca, de leitinho, de pãozinho... Antes não tivéssemos, quem dera!

FERNANDA BOTELHO 1926-2007

Contra-capa

de


Terça-feira

4 PM (2)

Ela aparecia todos os dias. 4 PM. Ele já lá estava. Sorriam. Deixavam recados nos intervalos das palavras banais.
Ela gostava de homens cautelosos. Um dia apareceu meia hora mais cedo Ele não estava lá. Ela nunca mais apareceu.

4 PM

Era um homem meticuloso. 15h 55m entrava no café e sentava-se sempre na mesma mesa. Quando notou que ela chegava sempre às 16 horas, e sendo um homem cauteloso, começou a chegar 1/4 de hora antes.

Domingo

Sons

O Som do silêncio desta vila à beira Lisboa plantada é uma das coisas que me faz gostar este lugar

Sexta-feira

Educação sentimental (3)

Que silêncio se esconde nas cartas, mails, recadinhos-em-post-it que escrevemos?

Quinta-feira

Ler um livro (3)


'sabes,' diz ele, 'eu acho que sei a resposta, quer dizer,
à pergunta que tu fizeste no outro dia, aqui na pastelaria
aquela coisa da porta para nos evadirmos, para sairmos da caverna prisão
a porta é ser como se é
quando não se é o que se é, percebes?, é-se o que não se é'
'percebo'
'é como tu andas sempre a dizer, o não ser não é,
é isso a prisão, a gente anda sempre a não ser...'
(...)
'eu contigo sou mais eu mesmo' e, muito baixinho, com medo de ser ouvido 'e tu és sempre tu, existes muito, às vezes isso faz medo às pessoas, aos professores, tu não percebes, mas às vezes é isso que fazes,
eles querem ficar do lado de cá, não pensar nisso, mas tu,
tu passas sempre a porta...'
Rui da Costa Lopes, A Caverna de Tartufo, Colher de Chá Edições, 1995

Quarta-feira

Da recolha

Estás a pensar em quê?

Por vezes pensamos no nada e em tudo ao mesmo tempo. Impossível transcrever. Pensamos no nada-tudo dos pequenos pormenores quotidianos. E não conseguimos descrever. Mas a vida dos nossos dias vai guardando.

Guardamos o quê?

Não esquecer nada, mas guardar o que nos fez-faz sofrer numa caixa. Saber o lugar onde, e só em caso de necessidade de arma de resguardo, lá ir (nunca usar como arma de arremesso)

Ter à mão os momentos doces, belos, simples, e até os momentos assim-assim; ressumindo: ter à mão todos os momentos que nos fazem rejubilar

Wishlist

Dizem-me cá em casa:

-Então, a tua lista?


Em jeito de provocação deixo-vos o conselho do amigo Jorge:

- Ó miúda, deixa-te coisas, o que tens a fazer é escrever um livro e arranjar um gato!!!

Segunda-feira

Pessoas que gostava de chamar

Sempre que vou a Lisboa, gostaria de a encontrar ao dobrar da esquina.
Estas fotografias* hoje foram tiradas a pensar nela




*fotografias via telemóvel

Névoa em Lisboa

Anoitece em Lisboa. No Cais-do-Sodré, para além do ruído do trânsito ouve-se o som trinado dos passáros a recolher nas árvores do largo. Lisboa está envolta numa névoa branca. Não é nevoeiro. É o fumo dos carrinhos das castanhas assadas.

Lembrei-me do Sr Barata*


Será assim tão estranho uma mulher recorrer a um engraxador de sapatos (neste caso botas)? Todos o homens presentes no bar olhavam-me com ar estranho. O Sr Guilherme não sabia quanto me havia de levar pelo serviço. "Aos homens levo 1,5 € pelos sapatos, a senhora logo vê quanto há-de pagar". Dei-lhe mais que o dobro. Sempre que vou a Lisboa vou ao Bristish Bar antes de tomar o comboio; converso com o Sr. Guilherme sobre as banalidades da vida. Foi a primeira vez que me engraxou os sapatos. Disse-me que eu era uma santa e que para a próxima vez que lá fosse, me dava uma limpeza e não me levava nada. Santo é ele, que na sua velhice continua a sorrir com os olhos.

* O Sr.Barata era o engraxador da Tentadora, em Campo De Ourique.
Nota: não ampliar a imagem que ,foi tirada via telemóvel. está cheia de grão

Sábado

Rui da Costa Lopes

Rui da Costa Lopes, além do livro mencionado anteriormente tem também publicado "O Segredo do Cofre Espanhol - Notas para um Ideário Filosófico de José Maria Eça de Queiroz", Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Colecção temas portugueses, Outubro de 2000.
Tem também dois textos de teatro que foram representados no Teatro da Nova. Em 1982 "Rei Ramiro" e em 1987 "A Queda e o Coice"
Em 1995 editou, na Colher de Chá Edições, um conto magnífico:"A Caverna de Tartufo".

Sintra

A descrição que falei no post anterior

"Sintra tem em comum como Douro e com muitas outras terras portuguesas, os seus socalcos que grandes muralhas de pedra sustentam, parecendo com os seus musgos e heras, caprichosos acidentes naturais. No Douro, nesses socalcos virados a Sul crescem vinhas que dão por nomes caprichosos, a Donzelinho, a Touringua, a Alvarelhão. Em Sintra, toda virada a Norte e a Poente, o spleen de Suas Magestades fez crescer o recreio, o ócio, as sombras frescas, os grandes cedros, os exóticos taxódios que os primeiros steamers trouxeram pequeninos dos pântanos da Loiusiana, ou as suas irmãs de climas secos, as jovens sequóias.
E sob essas sombras, aninhadas, escondidas pelos muros, pintadas de discretos cinzas ou de pálidos ocres, a pouco e pouco foram nascendo as casas. Fantasistas umas, com torretas ameadas a afirmar a nobreza de castelos, calmas e discretas outras, na severidade das linhas rectas. Em todas elas, porém, um mirante no extremo do muro ostentando colunatas em que grossas cordas de pedra musgosa se enroscam a sustentar ogivas, ou, mais clássico, a imitar o pequeno templo de Delfos, recorda que Sintra, exprime um gosto de viver requintado, as entrevistas galantes ou, tão só, o doce passear nas manhãs soalhentas de Verão, nas tardes calmas de Outubro, pelo parques à inglesa, pelos pequeninos jardins franceses semeados de canteiros e de vasos, de alegóricas Musas, de Neptunos a guardar as águas verdes de tanques escurecidos por líquenes."
Rui da Costa Lopes, A Siberiana, 1998, Câmara Municipal de Sintra
(este romance mereceu o Prémio Ferreira de Castro/1997 da Câmara Municipal de Sintra)

Lugares que me chamam



Está um dia cinzento a apetecer ir passear a Sintra. Gosto de Sintra em todas as estações do ano, mas agora o tom ocre das plantas entrelançado com o verde que ainda lhes resta... Que saudades de Sintra.

Li uma bela descrição de Sintra. Estou na dúvida em que livro. Vou procurar e volto mais logo, que os deveres domésticos também me chamam.
Nota: a fotografia não é de Sintra, é do "meu" jacarandá; ontem